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Trecho de "Um real e a estória de uma vida"

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Caçola: O “flanelinha”



Tai um cara que todos no mundo precisam conhecer: “Caçola”. Quando uso estas expressões do cotidiano é porque fiquei viciado naquela gente. Elas mostram-me a simplicidade, a humildade e a perseverança para viver.
Ele, refiro-me a Caçola, é o mais engraçado “menino” de rua que eu já vi. Toda manhã acorda bem cedo. Às 5 horas já está de pé. Se é que podemos chamar aquilo de acordar...
Caçola boceja e estica o corpo no melhor estilo do animal preguiça. Todo dia olha para o céu e diz: “Meu pai Oxalá, hoje eu não vou fumar!... Eita droga desgraçada!” Referindo-se ao uso do crack. Num pote de barro com água, de origem duvidosa, faz sua higiene bucal e lava seu rosto.
Na barraca de seu João ele bebe um menor (cafezinho) que lhe dá o café em retribuição aos serviços de lavagem e guarda de seu carro. A roupa de guardador de carros é uns trapos velhos e um colete salva-vidas laranja. Usa um boné, do qual se orgulha muito por ser da marca Cyclone, um sapato velho e uma bermuda jeans toda rasgada. Aquele irritante apito que parece de uma sirene de indústria tamanha sua sonoridade. Sorte nossa que ele também não gosta muito de usá-lo. Mais uns poucos panos completam seu estilo de vestir.
Em cada canto uma resenha e em cada resenha não faltava o refrão: “Topo tudo todo dia! Tá ligado, véi”. Todos do Comércio conhecem Caçola. Mas, nem todos o ajudam. Alguns comerciantes até já o enxotaram das imediações de suas lojas com certa violência. Assim ele me contou.
Percebi que naquele rapaz sofrido e sorridente habita um coração de criança que se perdeu nas drogas. As lembranças da mãe e do sofrimento que ela passou com as bebedeiras do pai (motivo de sua saída de casa), ainda atormentavam a cabeça daquele menino.
Como fiquei sabendo de tudo isso?... Conversando com Caçola no restaurante popular. E foi mais ou menos assim...
Encontrava-me numa enorme fila quando ouvi aquele reboliço. A turma toda se agitou. Uma música vem surgindo no meio do burburinho da poluição sonora de Salvador. A música, cantada no maior desafino, era nada mais, nada menos que um clássico de Alceu Valença em homenagem a Raul Seixas, Maluco Beleza:
Oh!!! Oh!!!
Bicho maluco beleza...
Bicho maluco beleza do Largo do Amparo...
E as pessoas na fila murmurando: “Lá vem o maluco!... Acabou a paz!... É uma figuraça!”
– Será que já fumou hoje?... Falou o senhor Tertuliano que logo teve resposta:

 Qualé mano. Tô de boa hoje, tá ligado véi! Tô é com uma fome!... Vou comer dois pratos.
 Vai comer os pratos é Caçola?! Retrucou Tertuliano.
 Sua mãe! Seu corno! Respondeu de maneira engraçada Caçola. Todos que estavam ali riram.
Caçola continuou seu canto...
...Bicho maluco beleza... do Largo do Amparo!
 

Era uma chegada de quem chega chegando, como se diz aqui na Bahia. Não havia quem não desse risada. Até aquelas pessoas de péssimo humor acabavam sorrindo. Mesmo que fosse aquele sorriso de cantinho de boca. Ele perturbava a todos. Sempre gritava com D. Maria, perguntando a ela sobre dinheiro:
– Mãe Maria, cadê aquele dinheiro gordo que a senhora tem?... Aquela farinha dá dinheiro, viu! Mainha... Me dê um real aí, vai. Tô com uma fome da gota! Só lavei um carro hoje e Seu Manoel tava sem dinheiro. Dinheiro pequeno, né. Porque grande aquele português tem demais!
– Se eu tivesse um fio assim eu mandava era prender! – protestou de bom humor D. Maria.
– Ôoooo, mãe, você sabe que você mora no meu coração. Só um real para matar minha fome!... Vai!
– Toma. Entregando-lhe um real e sorrindo D. Maria completa: Mas não se acostume não, que eu não sou doida pra sustentar vagabundo!
– Deus lhe dê em dobro!... – bem baixinho ele murmura: “Mas espere sentada que em pé cansa!...”
Arnaldo, o evangélico, grita:
– Sai Exu!... Mal agradecido!... Deus tá vendo, viu Caçola.
– Vendo ele até pode está!... Eu só queria saber se ele é surdo. Porque você está gritando para caralho! Kkkkkkkkk...
A turma em volta não resistiu e foi mais uma daquelas gargalhadas gerais.
– Qual o prato do dia? – Quer saber Caçola.
Eu estava próximo dele no momento porque a fila anda em ziguezague num corredor de ferro parecendo um curral, então respondi:
– Frango com quiabo e ou carne cozida.
Caçola começa a lamentar:_Todo dia... Todo dia tem galinha nesta porra! _O governo deve ter algum criatório de frango, não é possível! A última vez que comi peixe aqui foi na semana perto da sexta-feira da paixão. Baiano que é baiano gosta de peixe, de camarão, sardinha. Acho que vou matar outro cristo para ver se tem peixe nesta porra!

Gigante, o segurança adverte:_ Cala boca e respeite a fila!
Caçola baixando a cabeça retruca:_ Sem violência!
           _Eu sei os meus direitos!
           _Tá ligado véi.
continua....
Roberto Castro
Enviado por Roberto Castro em 27/04/2017
Código do texto: T5982482
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Roberto Castro
Salvador - Bahia - Brasil
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Roberto Castro